Manifesto Contra Competições de Parkour – XTREME GRAVITY


Naim

Nós, traceurs e traceuses da França e mundo afora, nos colocamos veementemente contra a organização de competições de Parkour e campeonatos.

 E fazemos isso, por duas razões principais:

1 – Competição não é compatível com nenhum desses princípios do Parkour:

« Parkour é um método de treino ».

Aquele que disse isso foi nada menos que David Belle. É um treino para eficiência e não para apresentações; um treino para romper obstáculos, não para coletar prêmios. E tal qual um método de treino, ele implica em treinamentos e não em espetáculos. Parkour não é um esporte, e não tem nada a ver com esportes, exceto o uso que é feito do corpo humano. Trata-se de um método de treinamento técnico, físico e mental, uma disciplina integrada a uma filosofia, com maneira particular de se pensar, treinar e observar o meio que nos cerca.

Competição nada mais é do que espetáculo. É a adversidade sendo mostrada como entretenimento. Pessoas julgam a sua aptidão física em um tempo delimitado. Para vencer, você tem que fazer melhor do que os outros competidores. Você não está lá para treinar, ou mesmo para pensar, ou analisar as coisas de forma diferente; você está lá para derrotar os outros e vencer. Esse é o único objetivo dos competidores e o que é esperado que eles sigam.

Portanto, o Parkour não precisa de competições. Ele tem a sua forma própria de organizar eventos e conseguir novos praticantes. Há no Parkour um importante lado social, feito de troca de experiências e da proximidade com os seus praticantes. E esse papel social se apresenta por si mesmo – e sempre existiu, desde o nascimento da prática – sem que seja necessário competições: através de treinos coletivos, workshops, encontros, ações em prol do Parkour, viagens para conhecer outras regiões do mundo, debates com as pessoas (praticantes ou cidadãos normais) durante os treinos e por assim em diante. Um encontro de Parkour (um grande ato para reunir os praticantes), é um exemplo de algo que, aí sim, precisa de algum tipo de organização. Durante esses tipos de eventos, os praticantes se conhecem, treinam, discutem, trocam experiência e conselhos. Eles normalmente excedem expectativas, os traceurs sabem disso, e por isso eles tentam participar deles o máximo que podem. Não há necessidade de transformá-los em competições com prêmios para o vencedor a fim de agradar os praticantes.

2 – Competições de Parkour e Freerunning são altamente perigosas

Competições de Parkour e Freerunning fazem com que os atletas: 1 – Façam tudo aquilo que eles conseguirem dentro de um espaço limitado de tempo e 2 – realizem as coisas mais difíceis e perigosas que conseguirem a fim de impressionar o público e os juízes. Ao invés de simplesmente optar por técnicas simples e seguras, coloca os atletas em situações de grande perigo e isso não mede de forma alguma suas habilidades.

O fato é que realizar uma boa apresentação na competição é o que inevitavelmente irá levá-lo a vitória desejada (e a qualquer custo), e, para vencer, ele tentará impressionar o público e os juízes (a qualquer custo).

A situação de alto e incomum stress a que são submetidos fazem com que muitas vezes eles deixem de lado o senso da razão.

Esses parâmetros contribuem significativamente para modificar o pensamento dos atletas e alterar sua percepção das coisas, modificando assim sua freqüência cardíaca, respiração, atenção e habilidade de concentração, e algumas vezes os levam até a tremedeira. Isso significa que qualquer competidor, independente do nível técnico, pode ser afetado por esses parâmetros que são inerentes ao contexto competitivo – e que, no caso de uma prática como o Parkour ou o Freerunning pode ser extremamente perigoso, já que envolve riscos que podem levar a tragédias – e – que como já era de se esperar – vários desses acidentes já aconteceram.

Inclusive há casos onde mesmo depois da queda, o atleta não para, embora fosse extremamente perigoso (e potencialmente mortal), ele continua a executar suas acrobacias, porque ele não se deixará perder a competição por nenhum razão do mundo (o contexto competitivo o leva a pensar dessa maneira e ele tenta vencer não importa como).

E por último, um dos mais importantes ensinamentos do Parkour é a respeito da segurança (a capacidade de cuidar de si mesmo dentro da prática) e que deve ser levada a sério antes de se fazer qualquer coisa. Essa é a única maneira de “ser e durar”, como já foi dito pelo próprio David Belle.

Dito isso, pedimos ao evento “Xtreme Gravity” e seus organizadores que retirem o nome “Parkour” de TODOS os seus meios de comunicação e que cancelem o campeonato de “corrida de velocidade”.

Pedimos também a todos aqueles que, sendo praticantes de Parkour, e que carregam esses valores e defendem sua filosofia, que boicotem o evento, seja como participante ou como espectador, e que se manifestem abertamente o porquê de fazerem isso para que a informação seja então repassada.

Agradecemos com antecipação.

Esse texto é assinado por : Quentin Levietnamienvolant, Robin Pereira, Naïm L’Inconsolable, Anthony Arbona, Bastien Perrod, Cj Øry, Erwan Sbw Suquet, Alexandre Rochat, Anthony Denis, Yann Xtm Daout, Jeremy Bernardin, David Cyclope Chruz, Guilhem Couderc, Oscar Sanchez Castellon, Mehdi Arrif, Samy Belmahdi, Theo Baijot, Léo Rubin, Aurelien Soulimant, Florian Pascal, Vincent Forgeron, Eleok Egg, Gaëtan Rispaud, Julien Martin, Jeremy Plasschaert, Maxime Forestier, Jolas Ky, Akmao’le Cambodgienvolant, Willy Hamon, Andy Roux, Tarek Saghrou, Clément Dumais, Aral Roca Gomez, Alexandre Rochat, Rudy Guillem, Max Rousselle, Parkour Miramas, Thibaut Granier, Tony Eymard,Thomas Jort, Wesley Marcheron, Romain Ribaud, Samuel Gvdn, Ilies Aitemrar.

« O foco é o confronto com o obstáculo. Nas artes marciais, você se foca em machucar ou derrotar alguém para que saibam que você é forte. Mas aqui [no Parkour], existe o encontro somente entre você e o obstáculo. Você contra você mesmo. » (David Belle)

« Sem grupos, sem líderes, sem competições, somente um caminho. » (Sébastien Foucan)

« Parkour é uma ferramenta que pode ser usada para fazer muita coisa boa. É importante que as pessoas saibam disso antes que seja tarde demais e ele se torne algo completamente físico e somente feito por competição ou dinheiro, e com isso a mensagem seja perdida. » (Daniel Ilabaca)

« A competição, ao modificar o estado mental dos praticantes, os força a competir uns contra os outros em beneficio da satisfação do público ou de pessoas gananciosas. Parkour é único; ele não pode ser um esporte competitivo, a não ser que seja ignorada toda sua essência baseada no altruísmo e no desenvolvimento pessoal. Se tornar-se um esporte, vai ser difícil categorizá-lo como uma atividade não-competitiva. E então um novo esporte será difundido, mas que terá perdido toda sua dimensão filosófica. » (Erwan LeCorre)

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3 respostas para Manifesto Contra Competições de Parkour – XTREME GRAVITY

  1. lebeco disse:

    eu como um praticante, sou a favor desse manifesto, até porque eu quando começei a quase seis anos me envolvi em um parkour livre do mundo e foi por isso que me vi influenciado. Então porque mudar essa filosofia que me fez evoluir não só fisicamente, mais principalmente e mentalmente como pessoa e que me ajudou a ser uma pessoa cada vez mais justa e certa com a vida!!

  2. Ótimo texto e apoio.

  3. os campeonatos de parkour deveria ser assim:
    coloca 1 viralata brabo, um pitbull e um doberman treinados pra matar. larga os competidores dentro de um prédio todo mobiliado e um terreno amplo com carros, escadas e um muro bem alto…. ae vão saber realmente pra que serve o parkour 😀

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